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O homem que não tinha sonhos

  • há 10 horas
  • 4 min de leitura


Obviamente, César não sabia que havia apenas um fio segurando sua vida para que não desmoronasse. Ao final de uma sexta-feira, estava em seu escritório, com a cabeça baixa sobre as mãos, esfregando os olhos. Seus óculos de grau estavam sobre a mesa, ao lado de mais uma dose de café, às 18h.

Era mais um dia em que chegara cedo e ficaria além da sua jornada. O que lhe faltava em anos de experiência como gestor, compensava com horas extras não pagas. Apesar do terno risca de giz cinza, que o envelhecia, era impossível esconder o quão jovem era para o cargo que ocupava.

Ele desistiu de tomar mais um gole de café, olhou para a tela do computador e percebeu que já havia finalizado o relatório. Poderia ir embora, mas algo o segurava e, por vezes, esquecia-se de que era seu último dia antes das férias.

Pela primeira vez, César ficaria trinta dias seguidos longe do trabalho. Decerto, a pedido de sua esposa, que havia tempos insistia em ter mais tempo de qualidade como casal. Após muitas discussões, ele aceitara.

Às 20h, saiu do escritório, bem mais cedo do que costumava, e, como sempre, já não havia ninguém trabalhando.

Ao chegar em casa, sua esposa, Clara, estava com o rosto inchado e um aspecto triste, mas ele não percebeu. Chegou, cumprimentou-a e correu para arrumar as malas.

— César, eu não vou mais viajar.

Houve silêncio na casa.

— Você ouviu? Eu não vou mais viajar, César.

— Como assim?

— Não está dando certo. Você nunca me escuta, e essa viagem é mais um erro.

— Clara, estou fazendo como você me pediu... Não entendo.

— Como eu pedi? Você escolheu o local, fez as reservas e decidiu tudo sozinho, além de não ter ouvido nada do que eu falei. Você reservou um lugar no meio do nada, onde eu ainda terei que cozinhar e cuidar de tudo... como já faço aqui.

— Achei que estivesse tudo bem... Você só está me falando isso agora?

— Agora? Há semanas estou falando e tentando conversar com você sobre isso, mas você nunca me ouve. Nunca.

Clara chorou e limpou as lágrimas, pegando uma mala de tamanho médio.

— Vou passar uns dias com a família da minha mãe, lá no interior de Minas.

Clara entrou no táxi e partiu.

César não reagiu. Apenas se sentou no sofá, retirou os óculos de grau e repetiu a cena do escritório, com a cabeça baixa sobre as mãos, esfregando os olhos. Sua cabeça girava; sentiu tontura e um mal-estar generalizado.

Chegou à conclusão de que sua esposa havia enlouquecido. Pensou em cancelar as férias, mas a empresa não permitiria.

Racionalmente, não via outra alternativa senão viajar para o local programado. Arrumou as malas e partiu para o aeroporto. Ao chegar a Maceió, pegou o carro alugado e seguiu para Ipioca, uma praia próxima à capital.

Ele havia alugado uma casa à beira-mar, afastada do centro e de qualquer agitação. Acreditara que era isso que Clara desejava.

Às 23h, chegou à casa distante, empoeirada e completamente deserta. Não havia comida nem entregadores na região; então, restou-lhe dormir com fome.

Na manhã seguinte, César procurou uma padaria e tomou seu café da manhã. Depois, passou no mercado e comprou tudo de que precisaria na primeira semana, para limpeza e alimentação.

Limpou a casa com bastante cuidado; tinha todo o tempo do mundo. Organizou as malas e as compras do seu jeito. A casa era um sobrado com piscina, só para ele. Tentou ligar a televisão, mas ela não funcionava muito bem. No meio da tarde, saiu para almoçar em qualquer lugar e conhecer um pouco da região.

Ao voltar do almoço, dormiu o restante da tarde. Não se recordava da última vez em que havia se permitido descansar. Levantou-se, fez um lanche e ficou sentado na varanda da casa, apreciando o belíssimo mar, também só para ele.

À noite, fez mais um lanche simples e foi ler um livro na varanda. Agradeceu por ter se lembrado de colocar alguns livros na mala. Ao verificar os livros que trouxera, jogou-os no chão com força e gritou. Eram os livros de Clara.

Geralmente, César levava livros técnicos para estudar. Ali, havia apenas romances ou clássicos da literatura. Diante daquele cenário, não tinha alternativa.

Ao começar a leitura do romance Madame Bovary, perdeu-se no tempo e não queria desgrudar-se do livro.

Assim, sua vida passou a ter uma rotina diferente: limpar a casa, cozinhar, caminhar por longos períodos pela praia, apreciar o mar, ler e dormir. Ao longo dos dias, tentou entrar em contato com Clara, mas em vão.

Dias antes de voltar à sua rotina anterior, seu coração começou a apertar. César estava apreciando a própria presença, o silêncio quebrado pelas ondas do mar e, principalmente, percebia quanto precisava de pouco para se sentir bem.

Nesses dias, pensava apenas no sorriso de Clara e na voz de sua mulher, que ecoava em seus ouvidos antes surdos aos pedidos dela. Ao perceber isso, questionou-se: a quem ele ouvira durante toda a vida?

César fora seguindo o ritmo da vida que lhe haviam dado. Seguia a religião que escolheram antes de ele nascer, a profissão que oferecia emprego e ascensão garantidos pela influência da família e casara-se porque Clara insistira muito, e ele achara aquilo aceitável.

De todos esses aspectos, a única coisa que realmente amava era Clara. Sim, amava Clara, mas deixara que isso também se perdesse em meio a uma vida tão sem vida, afundada em escolhas e ações sem sentimento.

Após esses dias de intensa presença em si mesmo, César questionava a própria vida e, às vezes, concluía que ela não era um problema, que era uma vida boa. Mas lhe faltava estar presente nela, vivenciar cada momento e cada instante, em vez de passar como uma linha reta por todas as situações.

Tomado por essa faísca, ainda pequena, mas consistente, mandou uma mensagem mais calorosa para Clara. Abriu o coração, ainda com receio da rejeição, mas, depois de todo aquele tempo, ela lhe respondeu.

César fez as malas mais animado, com aquela sensação de vida nova. A vida seria a mesma, mas ele não seria mais o mesmo — e isso, por si só, já era uma grande mudança.

Fotografia dos artistas da Unsplash Siga-me no Instagram: @flavia_entreauroras


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por Flávia Adriana

Escrevo pela conversa com a alma.

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