O homem que não tinha sonhos
- Flávia Adriana
- 9 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

César não percebeu, mas estava à beira de um colapso. Havia um fio que segurava sua vida antes do caos. Ao final de uma sexta-feira, estava sentado em seu escritório com a cabeça baixa sobre as mãos esfregando os olhos, óculos de grau sobre a mesa e mais uma dose de café às 18h.
Ele não percebia, acreditava que estava tudo bem em sua rotina e aquela era uma vida de adulto.
César era considerado novo para o cargo que ocupava, a média era bem mais alta que sua idade, 27 anos. Tudo parecia bem natural para ele, seu trabalho, seu casamento de 3 anos e sua rotina.
Ele desistiu de tomar mais um gole de café, olhou para seu computador e percebeu que já havia finalizado o relatório. Poderia ir embora, mas algo o segurava. Era seu último dia antes das férias.
Pela primeira vez, César ficaria 30 dias fora do seu trabalho. Obviamente, a pedido de sua esposa que pedia mais tempo de casal. Apesar de achar uma bobagem, ele acatou.
18h30. Ele sai do escritório, bem mais cedo do que costuma sair. Já não tinha ninguém trabalhando, isso também era comum em sua rotina.
Ao chegar em casa, sua esposa, Clara, estava com um rosto inchado e um aspecto triste. Ele não percebeu de imediato. Chegou, cumprimentou e correu para arrumar as malas.
- César, eu não vou mais viajar.
Ele não ouviu de imediato.
- Você ouviu? Eu não vou mais viajar, César.
- Como assim?
- Não está dando certo, você nunca me escuta e essa viagem é mais um erro.
- Clara, eu estou fazendo como você me pediu... não entendo.
- Como eu pedi? Você escolheu o local, as reservas e decidiu tudo sozinho, além de não ter ouvido nada do que eu falei. Você reservou um local no meio do nada, que eu ainda terei que cozinhar e cuidar de tudo... como já faço aqui.
- Achei que estava tudo bem... agora que você me fala?
- Agora? Estou a semanas falando e tentando falar com você sobre isso, mas você nunca me ouve. Nunca. – Clara chorou e limpou as lágrimas, pegando uma mala média. – Eu vou passar uns dias com a minha mãe no interior de Minas.
Clara entrou no táxi e saiu.
César completamente atordoado com a cena e a decisão de Clara. Apenas pensava que sua mulher havia enlouquecido. Pensou em cancelar as férias, mas a empresa não permitiria.
Racionalmente, não via outra alternativa a não ser viajar para o local programado. Arrumou as malas e partiu para o aeroporto. Chegando em Maceió, pegou o carro alugado e partiu para Ipioca, uma praia próxima de Maceió, mas havia alugado uma casa beira-mar, bem afastado de tudo.
23h. Chegou na casa distante, empoeirada e completamente deserta. Não havia comida na casa, não havia entregadores na região. Dormiu com fome.
Na manhã seguinte, César procurou uma padaria e tomou seu café da manhã. Passou no mercado e comprou tudo que precisaria na primeira semana para limpeza e alimentação.
Limpou a casa com bastante cuidado, tinha todo o tempo do mundo. Organizou as malas e compras do seu jeito. Era um sobrado com piscina, só para ele. Tentou ligar a televisão, não funcionava muito bem. Saiu para almoçar em qualquer lugar e conhecer um pouco a região.
Ao voltar do almoço, dormiu quase a tarde toda. Não se recordava da última vez que havia se permitido descansar. Levantou-se, fez um lanche e ficou sentado na varanda da casa, apreciando o belíssimo mar, também só para ele.
À noite, fez mais um lanche simples e foi ler o livro em sua varanda. Agradeceu que lembrou de colocar alguns livros na mala. Ao verificar os livros que ele trouxe, ficou enraivecido por segundos, eram os livros de Clara.
Geralmente, César levava livros técnicos para estudar, ali havia apenas romances ou clássicos da literatura. Ele não tinha alternativa.
Ao começar a leitura de um romance Madame Bovary, ele perdeu-se no tempo e não queria desgrudar-se do livro.
Assim, seus dias passaram a ter uma rotina diferente. Limpar a casa, cozinhar, apreciar o mar, ler e dormir. Passou a caminhar por longos períodos pela praia. Porém, sem contato de Clara, da parte dela. Ele mandou algumas mensagens em vão.
Dias antes de voltar para sua rotina anterior, seu coração começou a apertar. César, pela primeira vez, se deu conta que nada do que ele fazia tinha algum significado para si mesmo.
Ele foi seguindo o ritmo da vida que lhe deram. Foi seguindo a religião que lhe deram, a profissão que foi mais fácil e casou-se porque ela insistia e ele achou aceitável. Era uma vida automática.
Ele percebeu que amava Clara, sim. Mas deixou que isso também se perdesse em meio a tanta vida sem vida. Tantas escolhas e ações sem sentimento.
Andando pela praia, poucos dias antes de voltar. César percebeu que sua vida não era o problema, era uma vida boa. Faltava apenas ele estar presente nela, a cada momento vivenciando cada instante. E não passando feito uma linha reta por todas as situações.
Tomado por essa faísca, ainda pequena, mas consistente, ele mandou uma mensagem mais calorosa para Clara. Abriu seu coração, ainda com receio da rejeição, mas depois de todo esse tempo, ela o respondeu.
César fez suas malas mais animado, com aquela sensação de vida nova. A vida seria a mesma, mas ele não. E isso, por si só, já é a grande mudança.
Ele não sabe, nem nunca saberá... talvez um Anjo um dia lhe conte, que ele estava evitando um grande colapso em sua vida. Ele estava prestes a ter um ataque cardíaco, um AVC ou coisa parecida.
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Este trabalho é de autoria de Flávia Adriana©
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