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O homem que não tinha sonhos

  • Foto do escritor: Flávia Adriana
    Flávia Adriana
  • 9 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Obviamente, César não sabia que havia apenas um fio que segurava sua vida de um colapso. Ao final de uma sexta-feira, ele estava em seu escritório com a cabeça baixa sobre as mãos esfregando os olhos, óculos de grau sobre a mesa e mais uma dose de café às 18h.

Mais um dia em que chegara cedo e ficaria além da sua jornada. O que ele não tinha dos anos de experiência que lhe faltava como gestor, compensava com horas extras não pagas. Apesar do terno risca de giz cinza que o envelhecia, era impossível esconder o quão novo era para o cargo que ocupava.

Ele desistiu de tomar mais um gole de café, olhou para a tela do seu computador e percebeu que já havia finalizado o relatório. Ele poderia ir embora, mas algo o segurava e, por vezes, se esqueceu que era seu último dia antes das férias.

Pela primeira vez, César ficaria 30 dias seguidos longe do seu trabalho. De certo, a pedido de sua esposa que há tempos insistia em ter mais tempo de qualidade de casal. Após muitas discussões, ele aceitou.

20h. Ele saiu do escritório, bem mais cedo do que costumava sair e, como sempre, já não havia ninguém trabalhando.

Ao chegar em casa, sua esposa, Clara, estava com rosto inchado e um aspecto triste, mas ele não percebeu. Chegou, cumprimentou e correu para arrumar as malas.

— César, eu não vou mais viajar... – Silêncio na casa. - Você ouviu? Eu não vou mais viajar, César.

— Como assim?

— Não está dando certo, você nunca me escuta e essa viagem é mais um erro.

— Clara, eu estou fazendo como você me pediu... não entendo.

— Como eu pedi? Você escolheu o local, as reservas e decidiu tudo sozinho, além de não ter ouvido nada do que eu falei. Você reservou um local no meio do nada, que eu ainda terei que cozinhar e cuidar de tudo... como já faço aqui.

— Achei que estava tudo bem... agora que você me fala?

— Agora? Estou a semanas falando e tentando falar com você sobre isso, mas você nunca me ouve. Nunca. — Clara chorou e limpou as lágrimas, pegando uma mala de tamanho médio. — Eu vou passar uns dias com a família da minha mãe, lá no interior de Minas.

Clara entrou no táxi e partiu.

César não reagiu, apenas se sentou no sofá, retirou os óculos de grau e repetiu a cena no escritório com a cabeça baixa sobre as mãos esfregando os olhos. Sua cabeça girava, sentiu uma tontura e um mal-estar generalizado.

Chegou à conclusão que sua esposa havia enlouquecido. Pensou em cancelar as férias, mas a empresa não permitiria.

Racionalmente, não via outra alternativa a não ser viajar para o local programado. Arrumou as malas e partiu para o aeroporto. Chegando em Maceió, pegou o carro alugado e partiu para Ipioca, uma praia próxima da capital.

Ele havia alugado uma casa à beira-mar, afastada do centro e de qualquer agitação, acreditou que era isso que Clara desejava.

23h. Chegou na casa distante, empoeirada e completamente deserta, não havia comida e nem entregadores na região, então, restou-lhe dormir com fome.

Na manhã seguinte, César procurou uma padaria e tomou seu café da manhã. Ele passou no mercado e comprou tudo que precisaria na primeira semana para limpeza e alimentação.

Limpou a casa com bastante cuidado, tinha todo o tempo do mundo. Organizou as malas e compras do seu jeito. A casa era um sobrado com piscina, só para ele. Tentou ligar a televisão, mas não funcionava muito bem. No meio da tarde, ele saiu para almoçar em qualquer lugar e conhecer um pouco a região.

Ao voltar do almoço, dormiu o restante da tarde. Ele não se recordava da última vez que havia se permitido descansar. Levantou, fez um lanche e ficou sentado na varanda da casa, apreciando o belíssimo mar, também só para ele.

À noite, fez mais um lanche simples e foi ler um livro na varanda. Agradeceu que lembrou de colocar alguns livros na mala. Ao verificar os livros que ele trouxe, jogo-os no chão com força e gritos, eram os livros de Clara.

Geralmente, César levava livros técnicos para estudar, ali havia apenas romances ou clássicos da literatura, diante do cenário, ele não tinha alternativa.

Ao começar a leitura de um romance Madame Bovary, ele perdeu-se no tempo e não queria desgrudar-se do livro.

Assim, sua vida passou a ter uma rotina diferente: limpar a casa, cozinhar, caminhar por longos períodos pela praia, apreciar o mar, ler e dormir. Ao longo dos dias tentou contato com Clara, em vão.

Dias antes de voltar para sua rotina anterior, seu coração começou a apertar. César, estava apreciando a própria presença, o silêncio quebrado pelas ondas do mar e, principalmente, do quanto precisava de pouco para sentir-se bem.

Nesses dias, pensava apenas no sorriso de Clara, na voz de sua mulher em seus ouvidos surdos para os pedidos dela. Ao perceber isso, questionou-se quem ele ouvira a vida toda?

César foi seguindo o ritmo da vida que lhe deram. Foi seguindo a religião que escolheram antes dele nascer, a profissão que tinha emprego e ascensão garantida por influência da família e casou-se porque Clara insistiu muito e ele achou aceitável.

De todos esses aspectos, a única parte que ele realmente amava era Clara, sim, mas deixou que isso também se perdesse em meio a tanta vida sem vida, afundada em tantas escolhas e ações sem sentimento.

Após esses dias de intensa presença em si mesmo, César questionava sobre sua vida e às vezes concluía que não era um problema, que era uma vida boa. Mas lhe faltava estar presente nela, a cada momento vivenciando cada instante e não passando feito uma linha reta por todas as situações.

Tomado por essa faísca, ainda pequena, mas consistente, ele mandou uma mensagem mais calorosa para Clara. Ele abriu seu coração, ainda com receio da rejeição, mas depois de todo esse tempo, ela o respondeu.

César fez suas malas mais animado, com aquela sensação de vida nova. A vida seria a mesma, mas ele não e isso, por si só, já é a grande mudança.

 Siga o instagram: @flavia_entreauroras

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 Editado 21/06/2026.

 Este trabalho é de autoria de Flávia Adriana©

 Nenhum tipo de inteligência artificial (IA) foi utilizada na criação deste texto.Registro efetuado em SafeCreative.org. © Todos os direitos reservados.

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