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A criança esquisita

  • há 10 horas
  • 4 min de leitura


Cláudia estava sentada na cadeira, em frente ao médico, e respirava fundo após receber a notícia de que estava com uma doença autoimune. Mais uma para a vigorosa lista de problemas para os quais não havia qualquer remédio, tratamento efetivo ou a tão sonhada cura.

Ela encarava o médico, que dizia, resumidamente, que poderia ser “estresse”. Ao ouvir essas palavras, sua vontade era de bater na mesa e gritar: “Como assim, estresse? Diabos!”. Esse novo jargão para doenças sem tratamento era semelhante ao fugaz “é uma virose”.

Ela ouvia sem reação externa. Era sexta-feira, dia do seu aniversário. Depois da consulta, não havia mais clima para comemorações. Apesar disso, honrou seu compromisso com alguns amigos.

Chegou ao bar com um sorriso de canto de boca, e todos os seus movimentos estavam contidos. Ajeitava constantemente a roupa, sem perceber o quanto o vestido tubinho, levemente apertado, a incomodava. Usava, juntamente com um par de scarpins bem altos, o cabelo milimetricamente esticado pelo calor de escovas e chapas, como de costume.

Cláudia fingiu bem naquela noite com os amigos, principalmente para si mesma. Quando voltou para casa, depois de muitos drinques, esqueceu as notícias recentes. Ao acordar e rever os exames, desabou em prantos.

Era uma coleção de doenças sem tratamento efetivo, com seus milhares de remédios e loções, que ela aplicava assiduamente para tratar as dermatites, as alterações hormonais e os problemas no sistema digestivo.

Cláudia travava batalhas diárias com o próprio corpo, mas ele sempre vencia. Não importava quantas orações fizesse ou quantas vezes se ajoelhasse.

Interrompendo o ciclo de pensamentos, ela recebeu uma ligação de sua amiga, Adriana:

— Tenho que te pedir um favor enorme! — disse, com a voz bem doce.

— Eita! Lá vem, hein... Nunca te vi assim. O que foi?

— Meu pai está internado, não tem ninguém para ficar com ele e eu não tenho ninguém com quem deixar a Bianca... Você poderia ficar com ela aqui neste fim de semana?

Cláudia gostava de crianças e gostava ainda mais de sua amiga, mas pensava apenas no fato de nunca ter cuidado de uma menina de seis anos. Sem alternativa, aceitou de imediato.

Ao chegar à casa da amiga, ficou surpresa com o caos instaurado. Pensou que havia mais crianças, mas era apenas Bianca em seu pequeno paraíso. Havia folhas de papel rabiscadas pela casa e brinquedos de todos os tipos espalhados pelo chão. Bianca estava sentada de qualquer jeito, desmontando e montando um aparelho de rádio antigo.

“Nossa, que criança esquisita, que menina diferente!”, pensou Cláudia.

Ao finalizar a montagem do rádio, que, incrivelmente, estava funcionando, a criança correu para o quarto, pegou uma saia colorida de carnaval e um microfone cheio de plumas, ligou a televisão e começou a cantar e dançar ao som do desenho animado.

Cláudia sorriu.

No meio da tarde, havia uma festa dos amigos de Bianca. Ao chegar ao local, Bianca parecia um foguete: saiu brincando com todos. De repente, estava organizando a brincadeira, e todos a seguiam. Cláudia sentiu uma angústia ao perceber alguns desentendimentos e, na volta para casa, resolveu conversar:

— Minha querida, você precisa ser mais delicada. Você viu como as outras meninas são mais quietinhas?

— Tia, o que eu tenho a ver com as outras meninas? Minha mãe sempre diz que eu preciso ser eu mesma...

— É que, assim, as pessoas não vão te aceitar muito bem. Vão te julgar, sabe?

— Meu pai disse que o importante é a gente gostar da gente, e eu gosto de mim.

Cláudia se calou. Enquanto os dias seguintes passavam no automático, as falas de Bianca ressoavam em sua mente.

Cláudia começou a ter visões de sua infância e lembrou-se do quanto era parecida com Bianca. Tinha gostos peculiares e muita energia; jogava futebol, desenhava, pintava, dançava e ainda mexia com coisas consideradas diferentes para uma criança, principalmente para uma menina.

A voz em sua cabeça — “Que criança esquisita, que menina diferente” — vinha de sua mãe, de seu pai e de alguns outros familiares e conhecidos, assim como os conselhos que tentara repassar para Bianca.

O corpo de Cláudia contorceu-se ao reviver as críticas que recebeu pelo jeito de andar, sentar-se, respirar e brincar, e por não ser uma “mocinha”. Ela gostava de subir em árvores, brincar de pique-esconde e de bonecas e não tinha medo de falar o que pensava nem de fazer o que queria. Era constantemente repreendida por isso. Era um pequeno vulcão em constante erupção.

Quase na pré-adolescência, Cláudia observou que as meninas ao seu redor — com seus laçarotes, suas saias rodadas e suas danças comedidas — eram constantemente elogiadas. Então, baixou o tom de voz, aprendeu a se sentar, a falar e a vestir roupas belas, mesmo que desconfortáveis. Tentou evitar tudo o que parecesse estranho aos olhos dos outros.

Coincidência ou não, sua primeira doença autoimune de pele surgiu no final da adolescência e, desde então, não houve um dia sequer em que não tivesse algo com que se preocupar. Ela já estava com 32 anos.

No dia seguinte, Cláudia sentou-se no chão com Bianca, e as duas desenharam, dançaram e montaram e desmontaram alguma coisa pela casa. Cláudia deixou que a criança esquisita fosse sua guia e apenas se entregou ao momento presente.

E, depois de muitos anos, foi a primeira noite em que Cláudia adormeceu profundamente, sem a ajuda de remédios.

Fotografia dos artistas da Unsplash


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por Flávia Adriana

Escrevo pela conversa com a alma.

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