A Criança Esquisita
- Flávia Adriana
- 2 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de nov. de 2025

Claúdia ainda estava sentada na cadeira, em frente ao médico. Respirava fundo tentando absorver a notícia de mais uma doença autoimune. Mais um problema para o qual não havia qualquer remédio, tratamento efetivo ou a tão sonhada cura.
Ela encarava o médico que dizia resumidamente que poderia ser ‘estresse’. Isso a deixava mais estressada, sendo sua vontade de bater na mesa e gritar “Como assim, estresse? Diabos!”. Esse novo jargão médico para doenças desconhecidas ou sem tratamento, era o semelhante ao “é uma virose”.
Cláudia apenas ouvia sem reação externa, enquanto seu mundo interno entrava em pânico, de novo. Era sexta-feira, dia do seu aniversário, não tinha mais clima para comemorações, mas honrou seu compromisso. Havia marcado um bar com alguns amigos. Então, após o trabalho, chegou tentando disfarçar seu caos interior.
Além disso, não percebeu totalmente o quanto o vestido tubinho, levemente apertado, a incomodava; juntamente com um par de scarpins bem alto. Seu cabelo estava milimetricamente esticado com o calor de escovas e chapas. Mas não sentiu que sua respiração estava mais acelerada que o normal.
Cláudia fingiu bem aquela noite com os amigos. Quando voltou para casa, depois muitos drinks, esqueceu as notícias recentes.
Ela era do tipo que fazia tudo que estava ao seu alcance, mas se martirizava excessivamente por aquilo que não tinha controle. Ao acordar e rever os exames, desabou aos prantos. Uma coleção de doenças sem cura ou tratamento efetivo, ela estava cansada da sua própria fé em lidar com tudo aquilo que era maior que si mesma.
Cansada dos milhares de remédios e loções que passava para os vários tipos de dermatites, alterações hormonais e problemas no sistema digestivo.
Não importa quantas orações e joelhos dobrados ela fizesse, quantos remédios alopáticos e tratamentos alternativos.Cláudia estava exausta das batalhas que travava com seu próprio corpo, porque ele sempre vencia.
Interrompendo o ciclo de autocomiseração, ela recebeu uma ligação de sua amiga, Adriana:
- Tenho que te pedir um favor enorme! – disse com voz bem doce.
- Eita, lá vem hein... nunca te vi assim, o que foi?
- Meu pai está internado e não tem ninguém para ficar com ele e não tenho ninguém para deixar a Bianca...você poderia ficar com ela aqui, neste final de semana?
Cláudia gostava de crianças e ainda mais de sua amiga. Ficou com receio de cuidar de uma menina de 6 anos, mas aceitou de imediato.
Ao chegar à casa da amiga, ficou surpresa com o caos instaurado. Pensou que havia mais crianças, mas era apenas Bianca em seu pequeno paraíso. Havia folhas de papel rabiscadas pela casa, brinquedos de todos os tipos espalhados e ela estava sentada de qualquer jeito no chão desmontando e montando um aparelho de rádio mais antigo.
“Que criança esquisita, que menina diferente!” – Pensou Cláudia.
Ao finalizar a montagem do rádio, que incrivelmente estava funcionando, a criança correu para o quarto e pegou uma saia colorida de carnaval e um microfone cheio de plumas, ligou a televisão e começou a cantar e dançar com o desenho animado.
Cláudia sorriu.
No meio da tarde, tinha uma festa de criança dos amigos de Bianca. Ao chegar no local, Bianca parecia um foguete, saiu brincando com todos. De repente, estava organizando a brincadeira e todos a seguiam. Cláudia sentiu uma angústia no peito. Percebeu alguns desentendimentos e, na volta para casa, resolveu conversar:
- Minha querida, você precisa ser mais delicada. Você viu com as outras meninas são mais quietinhas?
- Tia, o que eu tenho a ver com as outras meninas? Minha mãe sempre diz que eu preciso ser eu mesma...
- É que assim, as pessoas não vão te aceitar muito bem. Vão te julgar, sabe?
- Meu pai disse que o importante é a gente gostar da gente e eu gosto de mim.
Cláudia calou. Enquanto seguiam as horas e próximos dias no automático, as falas de Bianca ressoavam em sua mente.
Ela teve uma visão de sua infância e chocou-se ao lembrar do quanto era parecida com Bianca. Com gostos peculiares, alta energia, jogava futebol, desenhava, pintava, dançava e ainda mexia com coisas consideradas diferentes para uma criança, principalmente para uma menina.
Sua voz na cabeça “Que criança esquisita, que menina diferente”, veio de sua mãe, do seu pai e de mais alguns familiares e aleatórios.
Sua tentativa fracassada de conselhos para a menina, foram conselhos que ela mesma recebeu em sua infância. A diferença que ela os ouviu e internalizou profundamente.
Cláudia lembrou-se das críticas que recebeu pelo jeito de andar, sentar-se, respirar, brincar e por não ser uma ‘mocinha’. Lembrou-se que gostava de subir em árvores, brincar de pique-esconde e de bonecas. Também não tinha medo de falar o que pensava e queria, mas também foi punida por isso.
Lembrou-se do pequeno vulcão que era, aos poucos adormecido pelas críticas, julgamentos e “conselhos”.
Quase na pré-adolescência, Cláudia observou as meninas ao seu redor com seus laçarotes, suas saias rodadas e suas danças comedidas. Ela acreditou, então, em tudo que haviam lhe falado e que precisaria mudar para ser aceita.
Então ela baixou o tom de voz, aprendeu a sentar, falar e a vestir roupas belas mesmo que desconfortáveis. Tentou evitar tudo que parecesse estranhou aos olhos dos outros.
E, assim, Cláudia seguiu pelos seus dias moldando a si mesma, deixando o vulcão adormecer, a cada sim querendo dizer não.
Coincidência ou não, ela lembrou que sua primeira doença autoimune na pele surgiu na final da adolescência e não lembrava um dia sequer que não tivesse algo com o que se preocupar. Ela já estava com 32 anos.
No dia seguinte, Cláudia se sentou no chão com Bianca e desenhou, dançaram e montaram e desmontaram alguma coisa pela casa. Cláudia deixou que a criança "esquisita" fosse sua guia nos próximos dias e apenas entregou-se ao momento presente.
E depois de muitos anos, foi a primeira noite em que Cláudia adormeceu profundamente, sem ajuda de remédios.
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Este trabalho é de autoria de Flávia Adriana©
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