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A paixão de Beatriz - Parte 1

há 9 horas
5 min de leitura


Beatriz chegou ao seu minúsculo e bem localizado apartamento em São Paulo. Tirou os sapatos, deixando-os na entrada, jogou o blazer cinza e a mochila no sofá, correu para o quarto e retirou os acessórios, a camisa branca e a calça também cinza de alfaiataria.

Respirou aliviada feito uma guerreira pós-guerra que pode se desfazer de sua armadura. Mas ainda era apenas terça-feira, 20h da noite.

Finalizou o seu desarme tomando um banho e colocando uma roupa mais confortável. Já sem maquiagem, com o cabelo em coque desordenado e sem precisar sorrir para ninguém: mais um respiro aliviado. Até lembrar que ainda tinha trabalho a fazer.

Não era bem um trabalho, mas um estudo que ajudaria na sua função. Beatriz analisava os contratos de empresas para garantir que cumpriam os critérios de ESG (Environmental, Social and Governance). Precisava se aprofundar em alguns aspectos, mas o dia tinha sido exaustivo. Sua mente já

operava em câmera lenta e seu corpo estava sem vitalidade.

Por volta de meia-noite, ela pôde dormir para reiniciar o dia bem cedo. Adormeceu de exaustão.

Beatriz tinha 25 anos e aparentava ser mais nova; promovia diariamente um esforço hercúleo para aparentar credibilidade. Sua área de análises contratuais exigia também negociação com os fornecedores, acostumados com um ambiente tradicionalmente masculino.

Os gestos, as roupas, a maquiagem, o limiar entre a simpatia e a ousadia. Tudo era controlado por Beatriz, de uma maneira intuitiva, mas não totalmente consciente.

Ao acordar, ela conferiu sua agenda do dia. Beatriz fechou os olhos com raiva e xingou baixinho: “É hoje este maldito evento!” Ela foi indicada pelo seu chefe para um dos maiores eventos de Lideranças de Marketing e Publicidade do Brasil. Ela o considerava um assunto sem importância e distante de sua atuação.

Beatriz seguiu com suas roupas de alfaiataria em tons neutros, sua camisa social impecável e seu cabelo meio preso. Sua maquiagem natural e batom em cor nude. De imediato, percebeu uma diferença nas roupas dos participantes; de forma geral, ela estava muito mais formal que a maioria. Havia cores, cortes diferentes, alguns despojados, outros ousados. Havia muito barulho e agitação ao seu redor.

Em um dos intervalos, quase na hora do almoço, Beatriz estava pegando um café quando um rapaz se aproximou:

— O que está achando do evento, Beatriz?

Assustou-se e lembrou-se do crachá.

— Prazer, Alex.

— Não vejo a hora de ir embora — sorriu Beatriz, olhando para Alex, acreditando que ele pensava igual a ela.

— Nossa, que pena!

Percebendo a gafe, disse:

— Desculpa, é que não é minha área, não estou acostumada com este tipo de evento.

— Imaginei, estava te observando de longe e acreditei que estava em terra ‘estrangeira’.

Então, Beatriz conseguiu reparar mais em Alex. Ele estava um pouco mais formal que a maioria, por isso a sua confusão. Ela o observou mais, notando o quanto ele tinha um aspecto gentil. Não era o tipo de beleza que chamaria sua atenção, mas algo a atraiu.

— Eu sou um dos responsáveis por organizar o evento. Posso te adicionar no LinkedIn? Assim você fica com um contato em marketing e eu, em...?

— Análise contratual de ESG.

— Uau, empolgante! — Alex riu de maneira irônica.

O encontro casual deixou Beatriz desconcertada em todos os sentidos. Realmente, era uma visitante em uma terra estrangeira. Um lugar que falava outra língua, tinha outra cultura e uma animação fora do comum.

Das redes sociais, o contato de Alex e Beatriz estava caminhando para um almoço despretensioso durante a semana. Alex parecia querer falar de trabalho e isso foi apenas o início. Em poucos minutos, eles estavam falando da vida, dos amores passados e foram descobrindo afinidades. Foi intenso. Uma intensidade de confidências, íntimas demais para um primeiro encontro. Perderam-se no tempo. Beatriz perdeu uma reunião. Alex tinha outro compromisso presencial e também teve que inventar alguma desculpa.

Eles tiveram aquela conexão rara, que ocorre uma vez ou duas na vida. Quando a gente conhece alguém que faz a gente perder a noção de tempo e a conversa flui naturalmente. Uma confiança imediata a ponto de soltar confissões. Uma atração física além da estética.

Em pouco tempo, estavam completamente envolvidos. Beatriz não percebeu que estava realizando pequenas mudanças diárias em sua vida. Perdeu o controle de seus gestos, dos sorrisos e da maquiagem. Não conseguia mais interpretar aquele personagem que havia construído para sua vida.

Suas roupas estavam com um pouco mais de cor, seu cabelo estava mais solto e, muitas vezes, ela perdia a noção do tempo. Aos poucos, foi se interessando pelo trabalho de Alex. Em suas conversas, passou a dar várias ideias validadas por ele. Até que ele disse que ela tinha o dom para a área; ela sorriu e disse que ele estava sendo generoso.

Mas uma semente estava sendo plantada, com essas novas sensações e cores em sua vida. Ela começou a questionar a sua rotina sob uma ótica muito ampliada. Muitas coisas passaram a não fazer sentido para ela mesma.

A paixão é um caminho sem volta, uma longa estrada que você percorre tentando encontrar o amor, mas se depara com partes suas que você não conhecia, muitas vezes nem queria ou negava. Porque toda paixão tem um pé na loucura e outro na salvação.

Beatriz surpreendia-se diariamente com suas próprias atitudes. Passou a dizer não com facilidade ao que a incomodava. Havia uma urgência que acelerava o seu coração. Por outro lado, uma angústia dilacerante das dúvidas sobre o que estava se tornando: o amor a enlouquecera? Estava tudo tão encaixado em sua vida; o que estava fazendo?

Acordava pensando em Alex e dormia pensando em Alex. Pensava em Alex até mesmo quando estava com ele, deitada em seu peito.

O relacionamento tornou-se uníssono, até o dia em que tiveram a primeira briga. Beatriz passou a exigir mais atenção de Alex. Por outro lado, Alex estava envolto em vários problemas pessoais unicamente originados pela sua passividade e dificuldade em colocar limites.

A família o consumia exaustivamente para resolver problemas. Os amigos abusavam da boa vontade. Pessoas aleatórias captavam a facilidade de explorar sua complacência, disfarçada de bondade. O trabalho o explorava sem qualquer recompensa. E tudo isso sempre invadia o relacionamento; o casal parecia uma casa sem muros.

Beatriz via os problemas pessoais de Alex se acumularem. Irritava-se diariamente com sua inércia. Tudo parecia mais importante para ele do que o relacionamento. Ela ansiava por conexão; ele não se desvinculava das correntes dos outros.

Depois de infinitas tentativas, ela se cansou do constante sentimento de rejeição na relação. Olhava para Alex e não o reconhecia mais. Percebeu que estava desejando para ele algo que nem ele mesmo queria. E ela ansiava por essa mudança, exigia, cobrava. Pode ser que amanhã ou depois ele desperte, mas será tarde porque Beatriz havia decidido seguir sozinha.

Beatriz decidiu que iria abandoná-lo, como se por milênios já fossem. Como alguém que abandona uma ideia, um desejo... Ela o abandonou como se já tivessem vivido uma vida inteira.

Anos depois, Beatriz ainda estava solteira. Trabalhava atualmente em uma empresa de marketing digital. Havia muitas cores e muita agitação em sua nova vida, mas ela nunca mais interpretou um personagem sobre si mesma.

Depois de muito tempo, encontrou-se com Alex em um desses eventos. Ele estava exatamente do mesmo jeito, com a mesma vida, a mesma rotina. Entendeu que Alex era apenas Alex. Beatriz lembrou-se da guinada que havia provocado em sua vida, não apenas profissional. Havia se tornado um reflexo verdadeiro de si mesma em todas as áreas de sua vida.

O desejo de mudança era dela, não dele. Para Beatriz, a vida realizou um resgate no meio do oceano. A imagem de Alex, ainda que distante, era um farol: ao mesmo tempo que a guiava, a levava para longe dele. Porque a paixão nos salva da tragédia de não sermos nós mesmos.

Fotografia dos artistas da Unsplash


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por Flávia Adriana

Escrevo pela conversa com a alma.

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