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A Paixão de Beatriz e Alex

  • Foto do escritor: Flávia Adriana
    Flávia Adriana
  • 10 de ago. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 1 de nov. de 2025



Beatriz chegou em seu minúsculo e bem localizado apartamento em São Paulo. Tirou os sapatos deixando-os na entrada, jogou o blazer cinza e a mochila no sofá, correu para o quarto e retirou os acessórios, a camisa branca e a calça também cinza de alfaiataria.

Respirou aliviada feito uma guerreira pós-guerra que pode desfazer de sua armadura. Mas ainda era apenas terça-feira, 20h da noite.

Finalizou o seu desarme tomando um banho e colocando uma roupa mais confortável. Já sem maquiagem, cabelo em coque desordenado e sem precisar sorrir para ninguém; mais um respiro aliviado. Até lembrar que ainda tinha trabalho a fazer.

Não era bem um trabalho, mas um estudo que ajudaria na sua função. Beatriz analisava os contratos de empresas para garantir que cumpriam os critérios de ESG (Environmental, Social and Governance). Precisava aprofundar em alguns aspectos, mas o dia tinha sido exaustivo. Sua mente já operava em câmera lenta e seu corpo sem vitalidade.

Por volta de meia-noite, ela pôde dormir para reiniciar o dia bem cedo. Adormeceu de exaustão.

Beatriz tinha 25 anos e aparentava ser mais nova, promovia diariamente um esforço hercúleo de aparentar credibilidade. Sua área de análises contratuais exigia também negociação com os fornecedores, acostumados com um ambiente tradicionalmente masculino.

Os gestos, as roupas, a maquiagem, o limiar entre a simpatia e a ousadia. Tudo era controlado por Beatriz, de uma maneira intuitiva, mas não totalmente consciente.

Ao acordar, ela conferiu sua agenda do dia. Beatriz fechou os olhos com raiva e xingou baixinho: “É hoje este maldito evento!”. Ela foi indicada pelo seu chefe para um dos maiores eventos de Lideranças de Marketing e Publicidade do Brasil.  Ela considerava um assunto sem importância e distante de sua atuação.

Beatriz seguiu com suas roupas de alfaiataria em tons neutros, sua camisa social impecável e seu cabelo meio preso. Sua maquiagem natural e batom em cor nude. De imediato percebeu uma diferença nas roupas dos participantes, de forma geral, ela estava muito mais formal que a maioria. Havia cores, cortes diferentes, alguns despojados, outros ousados. Havia muito barulho e agitação ao seu redor.

Em um dos intervalos, quase na hora do almoço, Beatriz estava pegando um café quando um rapaz se aproximou:

- O que está achando do evento, Beatriz?

Assustou e lembrou-se do crachá.

- Prazer, Alex.

- Não vejo a hora de ir embora – sorriu Beatriz. Olhando para Alex acreditando que ele pensava igual a ela.

- Nossa, que pena!

Percebendo a gafe: - Desculpa, é que não é minha área, não estou acostumada com este tipo de evento.

- Imaginei, estava te observando de longe e acreditei que estava em terra ‘estrangeira’.

Então, Beatriz conseguiu reparar mais em Alex. Ele estava um pouco mais formal que a maioria, por isso a sua confusão. Ela o observou mais, o quanto ele tinha um aspecto gentil. Não era o tipo de beleza que chamaria sua atenção, mais algo a atraiu.

- Eu sou um dos responsáveis por organizar o evento. Posso te adicionar no LinkedIn? Assim você fica com um contato em marketing e eu em...?

- Análise contratual de ESG.

- Uau, empolgante! – Alex riu de maneira irônica.

O encontro casual deixou Beatriz desconcertada em todos os sentidos. Realmente, era uma visitante em uma terra estrangeira. Um lugar que falava outra língua, tinha outra cultura e uma animação fora do comum.

Das redes sociais, o contato de Alex e Beatriz estava caminhando para um almoço despretensioso durante a semana. Alex parecia querer falar de trabalho e isso foi apenas o início. Em poucos minutos, eles estavam falando da vida, dos amores passados e foram descobrindo afinidades. Foi intenso. Uma intensidade de confidências, íntimas demais para um primeiro encontro. Perderam-se no tempo. Beatriz perdeu uma reunião. Alex tinha outro compromisso presencial e também teve que inventar alguma desculpa.

Eles tiveram aquela conexão rara, que ocorre uma vez ou duas na vida. Quando a gente conhece alguém que faz a gente perder noção de tempo e a conversa flui naturalmente. Uma confiança imediata a ponto de soltar confissões. Uma atração física além da estética.

Em pouco tempo, estavam completamente envolvidos. Beatriz não percebeu que estava realizando pequenas mudanças diárias em sua vida. Perdeu o controle de seus gestos, dos sorrisos e da maquiagem. Não conseguia mais interpretar aquele personagem que havia construído para sua vida.

Suas roupas com um pouco mais de cor, seu cabelo estava mais solto e muitas vezes perdia a noção do tempo. Aos poucos, foi se interessando pelo trabalho de Alex. Em suas conversas, passou a dar várias ideias validadas por ele. Até que ele disse que ela tinha o dom para a área, ela sorriu e disse que ele estava sendo generoso.

Mas uma semente estava sendo plantada, com essas novas sensações e cores em sua vida. Ela começou a questionar a sua rotina em uma ótica muito ampliada. Muitas coisas passaram a não fazer sentido para si mesma.

A paixão é um caminho sem volta, uma longa estrada que você percorre tentando encontrar o amor, mas depara-se com partes suas que você não conhecia, muitas vezes nem queria ou negava. Porque toda paixão tem um pé na loucura e outra na salvação.

Beatriz surpreendia-se diariamente com suas próprias atitudes. Passou a dizer não com facilidade ao que lhe incomodava. Havia uma urgência que acelerava o seu coração. Por outro lado, uma angústia dilacerante das dúvidas sobre o que estava se tornando: o amor a enlouquecera? Estava tudo tão encaixado em sua vida, o que estava fazendo?

Acordava pensando em Alex e dormia pensando em Alex. Pensava em Alex até mesmo quando estava com ele, deitada em seu peito.

O relacionamento tornou-se uníssono, até o dia que tiveram a primeira briga. Beatriz passou a exigir mais atenção de Alex. Por outro lado, Alex estava envolto em vários problemas pessoais unicamente originados pela sua passividade e dificuldade em colocar limites.

A família o consumia exaustivamente para resolver problemas. Os amigos abusavam da boa vontade. Pessoas aleatórias captavam a facilidade de explorar sua complacência, disfarçada de bondade. O trabalho o explorava sem qualquer recompensa. E tudo isso sempre invadia o relacionamento, o casal parecia uma casa sem muros.

Beatriz via os problemas pessoais de Alex acumularem. Irritava-se diariamente com sua inércia. Tudo parecia mais importante para ele do que o relacionamento. Ela ansiava por conexão, ele não se desvinculava das correntes dos outros.

Depois de infinitas tentativas, ela cansou do constante sentimento de rejeição na relação. Olhava para Alex e não o reconhecia mais. Percebeu que estava desejando para ele, algo que nem ele mesmo queria. E ela ansiava por essa mudança, exigia, cobrava. Pode ser que amanhã ou depois ele desperte, mas será tarde porque Beatriz havia decidido seguir sozinha.

Beatriz decidiu que iria abandoná-lo, como se por milênios já fossem. Como alguém que abandona uma ideia, um desejo... Ela o abandonou como se já tivessem vivido uma vida inteira.

Anos depois, Beatriz ainda estava solteira. Trabalhava atualmente em uma empresa de marketing digital. Havia muitas cores e muita agitação em sua nova vida, mas ela nunca mais interpretou um personagem sobre si mesma.

Depois de muito tempo, encontrou com Alex, em um desses eventos. Ele estava exatamente do mesmo jeito, com a mesma vida, a mesma rotina. Entendeu que Alex era apenas Alex. Beatriz lembrou-se da guinada que havia provocado, não apenas profissional. Havia se tornado um reflexo verdadeiro de si mesma em todas as áreas de sua vida.

O desejo de mudança era dela, não dele. Para Beatriz, a vida realizou um resgate no meio do oceano. A imagem de Alex, ainda que distante, era um farol: ao mesmo tempo em que a guiava, a levava para longe dele. Porque a paixão nos salva da tragédia de não sermos nós mesmos.


O e-mail de amor, por Alex



Beatriz, Tudo bem?

Espero que o seu e-mail ainda seja o mesmo.

Ontem nós vimos e senti vontade de te escrever, apenas terminamos e seguimos, sabe? Acredito que merecemos mais que isso, você merece mais que isso.

Quando estávamos juntos, eu te vi diariamente se esvaindo de minhas mãos. E eu poderia ter prometido que tentaria mudar, mas estaria mentindo.

Você chegou em minha vida como uma primavera, depois de um longo inverno em meu coração. Que era terra devastada até você aparecer.

Eu amava cada dia mais suas mudanças e descobertas e admirava quem você estava se tornando, sem saber que ao mesmo tempo eu estava te perdendo. Até que um dia eu percebi. Mas eu não queria admitir, quis esticar a corda.

Estiquei até o momento em que o nosso amor começou a ficar soterrado sob pressões e cobranças. Eu até me esforcei, mas parecia que não tinha fim. Quando você mudou, o seu amor mudou junto?

            De repente, tudo que você havia se apaixonado em mim, tornou-se um problema. Eu fui entendendo e um dia eu acordei, tomamos café e olhei para você: Linda como sempre, mas distante. Iniciando o dia com suas falas animadas.

            Neste dia, você começou a me cobrar e apontar uma série de mudanças que eu deveria fazer. Mas no dia anterior eu havia feito um jantar surpresa para você. Neste momento, eu entendi que eu nunca seria suficiente. Você lembra que não brigamos? Porque ali eu desisti de nós.

            Eu passei a estar na relação sem acreditar nela, eu sei que você acredita que me abandonou. Mas, hoje, eu vejo que abandonei primeiro o nosso amor, apenas não tinha coragem de admitir ou sair.

            As coisas foram se agravando, você passou a exigir mais e mais. Sim, eu entendo. Hoje eu vejo, que quanto mais eu abandonava emocionalmente a relação, mas você tentava resgatar. Você, da sua maneira, tentou por diversas formas. Eu apenas abandonei.

            Te digo essas coisas agora, porque eu te vi ontem e você estava linda, como sempre. Olhei para você e me questionei se poderíamos ainda estar juntos. Se eu tivesse ouvido mais você ou me esforçado mais. Você tinha razão sobre diversas coisas, mas eu não estava pronto para rever minha vida como você fez.

            Confesso que até invejo você, um pouco. Você conseguiu revolucionar tudo em sua vida, inclusive a mim. Você se permitiu ser levada pela paixão que fomos um dia, feito um furacão. Eu não consegui alcançá-la.

Eu apenas queria você e acreditava que isso bastaria para mim, por isso não levei a sério os seus anseios e desejos. Mas depois que você me deixou, inicialmente eu senti que era o melhor para os dois. Não foi.

Eu entrei em um estado de tristeza e comecei a rever nossa relação. Eu sentia sua falta todos os dias. E foi assim, que suas frases começaram a fazer sentido. Sua voz ecoava no quarto, na sala e no café da manhã. Sabe o que eu lembrei? Sim, eu fiz o jantar para você, mas parei no meio do jantar para atender uma ligação do meu irmão. Não era importante, mas fiquei um bom tempo. Voltei para nossa mesa, a comida fria, o vinho quente. Você triste. Eu não vi. Fui contar do telefone, eu fui falando de tantas outras coisas. Menos de nós.

A verdade Beatriz é que eu quase nunca a vi, nem quem você era e nem que você se tornou.

Estou tentando mudar a cada dia, sabe? Aos poucos. Ainda não tenho ninguém sério, mas todas as mulheres depois de você tiveram o que você nunca teve. Peço-te perdão por isso. Eu não consegui ser com você, mas você foi a propulsora, pelo menos para eu começar a tentar.

Sei que você olhou nos meus olhos ontem e acredita que eu ainda sou o mesmo. Eu não sou. Mas eu só queria que você soubesse que nosso amor não foi em vão.

 

Alex.




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Este trabalho é de autoria de Flávia Adriana

 Nenhum tipo de inteligência artificial (IA) foi utilizada na criação deste texto.

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