Delia
Delia carregava um sorriso típico de quem estava retornando das férias, com o ar leve e a pele renovada. Ela adentrou o ambiente de trabalho rapidamente para abraçar a equipe e compartilhar o bolo de laranja que havia feito no dia anterior.
Ao dar os primeiros passos, olhou ao redor e observou, por frações de segundo, que o movimento estava diferente. Havia algo novo no ar: os olhares rápidos, as conversas pelos cantos. Seu corpo enrijeceu-se e ela sentiu vontade de correr para algum canto do hospital, sem saber exatamente o porquê. Até mesmo o bolo ficou esquecido até chegar a hora de ir para a lixeira.
Foi bem recebida, mas, ainda assim, havia um incômodo rondando sua intuição. Até que lhe apresentaram o novo enfermeiro iniciante, João. Ele segurou sua mão com firmeza e a beijou. Em seguida, disse:
— Encantado.
O corpo dela se arrepiou; teve repulsa pela cara de João, mas não sabia o motivo.
O novo integrante da equipe tinha comportamentos que lhe causavam estranheza: aproximava-se excessivamente das enfermeiras, forçava abraços e fazia elogios aos corpos, aos penteados, ao batom ou a qualquer detalhe.
As enfermeiras começaram a fugir de onde ele estava, aproximando-se de outros enfermeiros ou médicos que estivessem no local.
A intuição de Delia gritava que havia algo mais sombrio por trás daquele comportamento. Imbuída dessa convicção e respaldada por seu cargo de supervisora de enfermagem, ela conversou individualmente com todas as mulheres do setor.
— Ele se aproxima demais ao falar, olha de cima a baixo. Eu fico constrangida, saio de perto e fico com certo nojo do toque — relatou uma das enfermeiras.
— Ele fala coisas inapropriadas sem que eu tenha dado qualquer abertura, força conversas sobre sexo. Eu tento fugir, mas ele insiste diariamente — relatou a moça da recepção.
— Sabe, eu fico constrangida, mas fico com dó de cortá-lo. Ele tem um jeito bonzinho, mas faz essas trapalhadas, sabe? — disse uma senhora da faxina.
Ainda não satisfeita, Delia resolveu sondar os setores anteriores:
— Olha, eu parei de servir café quando ele está por perto. Ele puxava meu cabelo, fazia insinuações. Eu sou casada. Não gosto dessas intimidades com outros homens; eu nunca dei essa intimidade — cabisbaixa, confessou uma moça da copa. — Um dia ele me mostrou um vídeo pornográfico e eu saí correndo assustada.
Ela questionou todas sobre por que não denunciavam. Parecia um eco ensaiado:
— Porque eu achava que era coisa da minha cabeça, ou que eu estava exagerando... Às vezes ficava até penalizada...
Da mesma forma empática com que Delia ouviu as mulheres, orientou, com certa firmeza na voz, que elas tinham o direito e o dever de falar não, impor limites e, se fosse o caso, denunciá-lo.
Até que, ao saber que ela falaria com ele, uma moça a questionou:
— Não seria melhor chamar um homem para falar com ele?
Delia abaixou os olhos, descrente do que acabara de ouvir, e apenas disse:
— Para quê? Por que um homem seria melhor?
Então, ela chamou João para uma conversa, que acabou tornando-se um monólogo:
— João, não é apropriado, no ambiente de trabalho, fazer elogios excessivos ao corpo das mulheres ou a qualquer aspecto de sua aparência física. Também não cabem toques sem consentimento. Espero que você mude seu comportamento a partir de hoje, ok?
Em seguida, formalizou a conversa por e-mail, incluindo indicações de materiais para estudo, conforme o protocolo da área de recursos humanos. Ele apenas pediu desculpas e calou-se.
Delia continuava chafurdando nas informações que chegavam a cada dia, ao passo que acompanhava o ambiente mudar e retornar ao que era antes da chegada de João. Após a conversa, ele mudou radicalmente. Algumas mulheres chegaram a agradecê-la, pois ela havia restaurado a paz no ambiente de trabalho.
Delia não entendia como uma pessoa com formação na área da saúde e do cuidado humano era capaz de atos tão repugnantes. Até que, um dia, enquanto monitorava os corredores do hospital, percebeu que uma das portas da enfermaria estava fechada. Estranhando a situação, abriu-a imediatamente e deparou-se com João assediando uma mulher em coma.
Toda a compostura de Delia foi por água abaixo. Imediatamente, ela desferiu vários tapas e socos em João. Ela foi contida pela equipe da enfermaria e começou a gritar, relatando a cena que havia presenciado.
Após o trágico incidente, João foi demitido.
Delia caminhava pelos corredores ouvindo os sussurros em vozes femininas e masculinas, que passaram a ecoar em sua mente:
“Será que ela não viu coisa demais?”
“Será que precisava demitir? Coitado! Ele nunca fez nada tão grave assim.”
“Precisava de tudo isso?”
“Será que foi aquilo mesmo que ela disse?”
Em poucos dias, as pessoas começaram a falar pouco com ela. Saíam de perto quando ela ia pegar um café ou um pedaço de bolo. Não a convidavam mais para as saídas fora do expediente. Delia começou a passar seus dias mais próxima do administrativo, com uma rotina fria de chegar, trabalhar e ir embora.
Depois de alguns anos, ela permanecia no mesmo hospital e ninguém mais se lembrava do que havia acontecido, exceto ela. Agora, quando via algo estranho, apenas olhava para o lado e trabalhava.
Fotografia dos artistas da Unsplash
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