O Mergulho de Narciso
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Muitas pessoas comentam o quanto me acham forte. Não sei dizer se sou ou não. Quando alguém diz algo sobre a gente, trata-se sempre de um conceito bem abstrato: é um olhar de fora que, às vezes, bate; em outras, não faz o menor sentido.
Eu não me considero forte, mas tive que ser em muitos momentos e, talvez, a essência desses momentos tenha perdurado a ponto de ser percebida, formando uma capa ou uma imagem.
Essa imagem se assemelha à de Narciso, que se olha no reflexo do rio e se apaixona por si mesmo. Ele apenas se apaixona porque não mergulhou profundamente: fixou-se na imagem. Essa imagem não deixa de ter um pouco de realidade, mas não é o todo. Da mesma forma, ser uma pessoa forte é apenas um reflexo no rio — um reflexo que muda com o simples balançar das ondas.
Por hábito ou comodismo, ficamos presos a certas imagens, sejam elas nossas ou dos outros. É mais fácil acreditar que eu sou a forte, que fulano é o engraçado e que beltrano é o irresponsável. Você sabe o que esperar de cada um; a sociedade sabe o que esperar de cada um, e você sabe o que esperar de si mesmo.
Quando essa corrente se quebra e vemos o forte chorar, o engraçado perder a compostura e o irresponsável acertar, é como se o nosso mundo quebrasse também.
Eu tive que ser forte para lidar com questões da minha infância, mas me pergunto: a que preço?
Durante muito tempo, carreguei certas bandeiras que hoje já não carrego nem quero carregar; ficaram pesadas e sem sentido. Deixei de lado as bandeiras do “eu dou conta de tudo”, do “eu aguento qualquer coisa”, do “vou ajudar a todos”, do “vou proteger a todos” e de outras tantas que fui deixando pelo caminho. Mas descobri outras que as sustentavam.
Descobrir a si mesmo é o mergulho que Narciso não fez: é atirar-se sem saber onde vai chegar — algo necessário, mas doloroso em muitos momentos.
Por trás da força, havia uma parte de mim insegura, insatisfeita e tomada por um grande sentimento de não ser suficiente. Para nada. Para ninguém.
Por muito tempo, acreditei que essa ânsia se devia a uma vida não vivida, mas percebi que tudo isso transcendia qualquer sentimento juvenil mal resolvido.
A ânsia, a angústia, a ansiedade e tantos outros “as...” são inerentes à condição humana. Alguns fogem; outros enfrentam. Cada um segue seu próprio caminho, à sua maneira.
No meu caso, era um chamado para esse mergulho em mim mesma, mas, ainda assim, é uma mistura do superficial e do profundo: um Narciso à beira do rio e um Narciso que mergulha.
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